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O jornal Estadão publicou nesta terça-feira, dia 30/06, artigo do assessor legislativo da CMB, José Luiz Spigolon.

No texto, Spigolon faz uma reflexão sobre o futuro dos hospitais brasileiros e da gestão hospitalar pós-pandemia.

Confira o material na íntegra:

A gestão hospitalar pós-pandemia

O mundo dos negócios jamais será o mesmo. Esta é a afirmação, quase unânime, de especialistas de inúmeros segmentos da economia mundial, ao expressarem suas opiniões sobre os efeitos da pandemia do coronavírus. E o que dizer dos hospitais brasileiros, tão fortemente atingidos pela extensão da crise que impactou, principalmente, a saúde pública do país?

Apesar de reconhecermos que o Sistema Único de Saúde (SUS) respondeu positivamente à pandemia e demonstrou musculatura para enfrentar suas demandas, não se pode ignorar a evidente falta de sincronização e coordenação de um sistema que se propôs ser “único”. Decisões da direção nacional, atribuída pela Lei 8.080/1990 ao Ministério da Saúde, foram seguidamente desrespeitadas pelas outras unidades federativas (estados e municípios), que adotaram ações e protocolos próprios para o enfrentamento do coronavírus.

Mas o mais evidente problema revelou-se na ausência de organização efetiva das Regiões de Saúde (RAS), especialmente das redes integradas de assistência de alta complexidade e das de laboratórios de saúde pública, previstas na estruturação do SUS. Isto permitiria racionalidade e eficácia na aplicação e utilização dos seus recursos materiais, humanos e financeiros. Passados mais de 30 anos de existência do SUS, essa implantação ainda não aconteceu.Mas o mais evidente problema revelou-se na ausência de organização efetiva das Regiões de Saúde (RAS), especialmente das redes integradas de assistência de alta complexidade e das de laboratórios de saúde pública, previstas na estruturação do SUS. Isto permitiria racionalidade e eficácia na aplicação e utilização dos seus recursos materiais, humanos e financeiros. Passados mais de 30 anos de existência do SUS, essa implantação ainda não aconteceu.

Pode se dizer que a pandemia pegou a todos um tanto despreparados, desorganizados e enfraquecidos para o seu enfrentamento. No início, a “bateção de cabeças” foi notória, até mesmo para secretários de saúde experientes e com larga atuação em saúde pública. Muitos sequer sabiam o quanto e onde estava localizada a capacidade instalada de leitos de terapia intensiva e equipamentos necessários disponíveis para o SUS. A ausência de hierarquização efetiva dos estabelecimentos hospitalares, segundo suas complexidades, para o correto referenciamento dos pacientes acometidos da Covid-19, revelou-se outra fraqueza do sistema público.

A notória falta de integração entre o sistema público e privado foi mais uma das fragilidades do sistema de saúde brasileiro, em parte motivada pela postura ideológica de atores do SUS que defendem que saúde tem que ser estatal, não admitindo a atuação privada no setor, nem mesmo de forma complementar, conforme previsto na Constituição Federal.

Feitas estas considerações — importantes para o que pretendemos aqui expor —, voltemos ao propósito deste artigo, que é o de fazer uma breve reflexão sobre o futuro dos hospitais brasileiros. De forma geral e como já o dissemos, “todos foram pegos de surpresa”, inclusive os gestores de alguns estabelecimentos que estão no topo da gestão profissionalizada. Sem exceção, nunca mais voltarão a ser o que eram antes do advento da pandemia. As internações domiciliares, adoção da telemedicina, utilização de aplicativos por beneficiários de planos de saúde, mudança comportamental da população que passou a evitar as aglomerações nos prontos-socorros e a procura por consultórios médicos e laboratórios, para ficarmos apenas nestes exemplos, definitivamente vão influenciar a operação dos hospitais.

Ninguém desse segmento pode afirmar que sabe “como será o amanhã”. Há muitas dúvidas e tudo muito difícil de prever. O certo é que não mais serão os mesmos. Terão que rever estratégias adotadas até aqui, quer em relação ao posicionamento no mercado, seus clientes tradicionais, especialidades, processos, projetos de expansão, utilização da força de trabalho — o mercado sofreu grande impacto, vejam-se os casos de home office —, enfim, terão de pensar em alternativas para enfrentar essas mudanças e entregar desfechos clínicos de maior valor ao cliente.*

Para os hospitais privados sem fins lucrativos (filantrópicos) contratualizados com o SUS, essas preocupações devem ser mais relevantes, isto porque o governo federal investiu bilhões de reais para ampliar a oferta de leitos nas unidades públicas, especialmente os de terapia intensiva (UTI), em todo o território nacional. Hospitais das universidades federais, dos governos estaduais e municipais aumentaram, em muito, suas capacidades instaladas e terão que as utilizar após a pandemia no atendimento normal da população brasileira, mesmo sabendo que os custos dessas unidades são muito superiores para os cofres públicos do que se paga para os filantrópicos. Assim, gestores do SUS terão de rever os quantitativos contratados com esse segmento e, quase que com certeza, cortes nos serviços até aqui prestados serão aplicados.

Ademais, há outro fato a reforçar esse provável comportamento: as eleições municipais e a posse de novos prefeitos em janeiro de 2021. A maioria das contratualizações têm seus vencimentos previstos para o último dia da gestão que se encerra a cada quatro anos e os novos prefeitos estarão confortáveis para contratar volume inferior de serviços, em especial nos municípios ou região que tenham recebido investimentos em decorrência da pandemia do coronavírus.

O que fazer, então? Rever toda a operação, renegociar contratos também com operadoras de planos de saúde, alterar processos, criar novos serviços, fechar alguns dos existentes. Haverá casos tão impactados a exigir estudos que podem até concluir pela necessidade de encerrar as atividades de hospitais. Não há como fugir destas abordagens e das necessárias ações para garantir a sustentabilidade do negócio, pois, com certeza, o setor hospitalar brasileiro jamais será o mesmo.

*José Luiz Spigolon é assessor legislativo da Confederação das Santas Casas de Misericórdia, Hospitais e Entidades Filantrópicas (CMB)

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