Se somados a pacientes com doenças crônicas, as despesas podem consumir até 66,5% dos gastos totais de um plano; para o Iess, cenário tende a piorar ano a ano, se ignorado pelo mercado
Vivian Ito

São Paulo - O gasto com internação da população idosa e com doença crônica pode ser 100 vezes maior que o despendido com o restante dos brasileiros. Com a projeção de que a participação deste perfil aumente nos próximos anos, o mercado de saúde suplementar sinaliza urgência na implementação de ações de redução de custo.

De acordo com a análise especial do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (Iess), com base em uma operadora de autogestão (de 76,1 mil vidas), quase dois terços dos gastos assistenciais da empresa em 2015 foram consumidos por apenas 5% dos beneficiários. Enquanto os outros 95% da carteira foram responsáveis por 33,5% das despesas.

Segundo o Iess, no grupo de menor porte, 64% das pessoas possuíam mais de 65 anos e apontaram um maior índice de doenças crônicas e multimorbidade. Por isso, também apresentam maior necessidade de procedimentos mais complexos que exigem mais tempo de recuperação. Os beneficiários deste grupo de maior risco precisou em média de 21 dias de internação com gastos que chegam a R$ 85.948, no resto da população (os outros 95%) a média de diárias era de 0,3 com um custo de R$ 713,60.

Os dados do Iess ainda apontaram que 92% dos gastos do grupo de risco foram com internações, seguido de exames (7%) e consultas (1%). Já no resto da carteira, os exames eram 50% das despesas.

Apesar de ser um estudo de caso de uma operadora autogestão - segmento que apresenta maior população idosa, de 25% em média - os números não são distantes do resto das operadoras comuns. Segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), as operadoras de planos de saúde médico-hospitalar possuem cerca de 14,1% de população com mais de 59 anos. "É importante identificar e compreender o grupo de beneficiários de alto custo, pois em todo o setor ele representa uma alta parcela das despesas assistenciais e possuem necessidades mais complexas", afirma o superintendente executivo do IESS, Luiz Augusto Carneiro.

Medidas
De acordo com Carneiro, atualmente, as operadoras de planos de saúde já adotam programas de promoção da saúde e estímulo ao envelhecimento ativo e a tendência é que essas iniciativas continuem no futuro, quando a proporção de idosos será muito superior à atual. Segundo outro estudo divulgado pelo Iess em 2016, com dados referentes a 2014, o total de internações de beneficiários de planos médico-hospitalares deve saltar de 8,2 milhões, em 2014, para 10,7 milhões em 2030.

Carneiro acrescenta que discutir os programas de saúde e cuidado preventivo para a população de maior risco podem trazer resultados financeiros positivos no médio prazo, mas não são suficientes para manter o equilíbrio financeiro. Para ele, além de prevenção e diagnóstico precoce, o setor deve retomar debates sobre a redução de uso de exames - muitas vezes duplicados-, tecnologia desnecessárias, idas dispensáveis à emergência, readmissões hospitalares evitáveis, taxas de infecção e efeitos adversos nos hospitais.

"É necessário que a agenda contemple itens como assegurar que a adoção de novas tecnologias se baseie em estudos de ATS [Avaliação de Tecnologias em Saúde] , que considerem a eficiência e os impactos econômicos do procedimento, além de mudar o sistema de remuneração em serviços de saúde, especialmente nas contas hospitalares", completa.

Ao DCI, o especialista conta que os desafios envolvem o governo, empresas contratantes de planos de saúde, operadoras e prestadores de serviços. "Há outras agendas a serem enfrentadas também como reduzir o grau de judicialização, promover transparência de desempenhos clínicos e tornar públicas as relações comerciais entre os distintos elos da cadeia", finaliza.

Fonte: DCI (SP)