Em uma década, déficit do setor no país passou de R$ 1,5 bilhão para R$ 21 bilhões. Risco de serviços serem interrompidos e leitos fechados é real, inclusive no Paraná
Diego Antonelli

O volume de dívidas das Santas Casas e hospitais filantrópicos de todo o Brasil deu um grande salto em uma década. Em 2005, o déficit financeiro do setor era de R$ 1,5 bilhão e passou para R$ 21 bilhões no fim do ano passado. A situação compromete o atendimento aos usuários e coloca as 2,1 mil instituições em estado de alerta. O risco de serviços serem interrompidos e leitos fechados é real. Em um pior cenário, alguns desses hospitais podem fechar as portas durante este ano.

Segundo a Confederação das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos, o volume das dívidas aumentou perto de R$ 6 bilhões em um intervalo de um ano. Apenas em 2015, a entidade aponta que, em todo país, 218 hospitais sem fins lucrativos, 11 mil leitos e 39 mil postos de trabalho foram fechados.

Menos leitos
O superintendente do Hospital Bom Jesus, de Toledo, Thiago Stefanello, diz que a instituição deve fechar quase metade dos leitos de UTI. Dez leitos de 24 devem parar de funcionar. “O pedido já foi protocolado. Só não fecharemos se o Ministério da Saúde tomar alguma medida.” O hospital acumula R$ 15 milhões em dívidas.

No Paraná, o sinal amarelo também está ligado. O Hospital Bom Jesus, de Toledo, protocolou recentemente um pedido para fechar 10 leitos de UTI alegando falta de recursos. A Santa Casa de Curitiba está fazendo um levantamento e pode fechar leitos durante o primeiro semestre deste ano.

Pela primeira vez, a Federação das Santas Casas de Misericórdia e Hospitais Beneficentes do Paraná (Femipa) conseguiu mapear o volume de dívidas das instituições no estado. De um total de 59 afiliados à entidade, 38 instituições somam cerca de R$ 1 bilhão em dívidas.

Causa
A principal queixa apontada pelas entidades para explicar a realidade financeira das Santas Casas e demais hospitais filantrópicos recai, mais uma vez, na defasagem existente no pagamento do Sistema Único de Saúde (SUS) aos serviços prestados.

Segundo o presidente da Femipa, Luiz Soares Koury, o valor repassado pelo Ministério da Saúde corresponde a cerca de 65% do valor gasto em um serviço. “Para cada R$ 100, os hospitais recebem R$ 65, em média. A desatualização da tabela de pagamento do SUS é algo que afeta diretamente a gente”, diz. Para tentar manter dinheiro em caixa, as entidades recorrem a financiamentos e a empréstimos bancários.

“Cria-se uma bolha de dívidas, com a cobrança de juros, que faz com que a situação comprometa o atendimento e o funcionamento dos hospitais. Há uma ameaça generalizada no setor”, afirma Koury. No estado, a maior parte das dívidas refere-se exatamente a empréstimos bancários (R$ 319 milhões).

O diretor executivo do Hospital Nossa Senhora das Graças, de Curitiba, Flaviano Feu Ventorim, vê como grande as chances de fechamento de leitos neste ano. “Todos os custos cresceram e o repasse está desatualizado há mais de uma década. Os hospitais trabalham de forma deficitária e, com isso, o risco iminente de fechar leitos e reduzir o número de profissionais é grande, o que comprometerá o atendimento à sociedade”, diz.

Santa Casa com a calculadora nas mãos
A Santa Casa de Curitiba já efetua cálculos de quais leitos devem ser fechados caso a situação financeira não melhore. O baixo valor repassado pelo governo federal somada à crise econômica, torna a situação da instituição ainda mais complicada. A dívida da instituição gira em torno de R$ 18 milhões. Em 2013, o hospital já tinha reduzido 40 leitos.

Para Álvaro Quintas, diretor-geral de saúde da mantenedora da Santa Casa de Curitiba, o hospital irá atender enquanto tiver condições para isso. “Enquanto dermos conta, vamos atendendo. Mas à medida que a dívida aumenta, teremos que ir parando certos atendimentos e reduzindo leitos”, diz. A instituição mantém hoje 278 leitos ativos.

Quintas, que também integra a direção do Hospital Cajuru, afirma que todos os hospitais filantrópicos vivem realidade parecida. “O Cajuru também deve ter redução de leitos”, lamenta.

Ministério diz que repasses aumentaram
O Ministério da Saúde afirma, em nota, que tem adotado medidas para fortalecer os hospitais filantrópicos e Santas Casas. Segundo o órgão, os repasses federais destinados a essas unidades cresceram 57% em quatro anos, o que representa um aumento de R$ 5 bilhões desde 2010.

“É importante frisar que esse financiamento às instituições não se resume ao pagamento da tabela SUS, uma vez que os valores fora da tabela, em 2014, já responderam a cerca de 40% dos R$ 14,8 bilhões federais destinados às instituições filantrópicas”, contrapõe o ministério.

O governo afirma ainda que as instituições que atendem 100% SUS passaram a receber adicional de 20% no total pago pelos procedimentos realizados desde 2012. “A partir de 2014, o Ministério da Saúde praticamente dobrou o valor de incentivo pago às Santas Casas que atendem pelo SUS, passando de 26% para 50%.” O ministério argumenta também que o Programa de Fortalecimento das Santas Casas (ProSUS), criado em 2013, prevê a quitação dos débitos tributários em um prazo máximo de 15 anos. Em contrapartida, os hospitais devem ampliar o atendimento de pacientes do SUS.

“Considerando o orçamento hospitalar via Teto de Média e Alta Complexidade, recurso enviado mensalmente pelo Ministério da Saúde para os Fundos Estaduais e Municipais de Saúde –a quem compete gerenciar e distribuir a verba para a região –, o crescimento do total em incentivos, além da tabela, foi de 210% desde 2010”, diz a nota.

Hospitais filantrópicos precisam investir em gestão, diz especialista
As dificuldades financeiras dos hospitais filantrópicos não podem ser explicadas somente pela defasagem na tabela de pagamento do Sistema Único de Saúde (SUS). Essa é a posição do especialista em gestão em Saúde, Jaime Gil Bernardes, mestre em Administração. Segundo ele, é inegável que os valores pagos pelo Ministério da Saúde são baixos, mas outros fatores ligados a dificuldades de gestão hospitalar interferem diretamente no setor, que vive o risco de ter leitos fechados em todo o Brasil. A dívida do setor é de R$ 21 bilhões em todo o país.

“Na realidade os baixos valores pagos pelo SUS se tornaram um culturalismo recorrente nos hospitais, uma caixa preta, onde a culpa da má gestão é colocada. Se existe um problema, é mais fácil colocar a culpa no SUS do que arregaçar as mangas e tentar resolver os problemas”, afirma Bernardes.

O primeiro passo para tentar sanar essas dificuldades, alerta o especialista é a profissionalização da parte administrativa. “O setor de faturamento de um hospital é uma das coisas mais complexas que existem. Um erro muito comum na gestão hospitalar é colocar médicos no comando estratégico. Treinamento, liderança, indicadores e outras práticas comum nas empresas parece que estão longe de muitos hospitais no Brasil.”, afirma ele, que ocupou cargo de gestor hospitalar no Rio Grande do Sul.

Segundo ele, há hospitais que possuem uma gestão profissionalizada que conseguem resultado financeiro melhor. “Mas os valores do SUS são os mesmos para estes hospitais e para os outros. Então como é que conseguem? Gestão, gestão, gestão”, aponta.

Vilão
Bernardes afirma ainda que o grande vilão no caixa de um hospital é a quantidade de desperdícios. “Não somente com materiais inutilizados e medicamentos não usados, mas com pessoas caminhando desnecessariamente dentro do hospital, salas cirúrgicas vazias, equipamentos sem manutenção. A literatura já fala, há muito tempo, que 40% dos recursos de um hospital são desperdiçados”, ressalta.

Um exemplo de erros de gestão é a Santa Casa de São Paulo. A instituição enfrenta, desde 2014, a maior crise financeira de sua história, com um rombo R$ 773 milhões nas contas. Uma auditoria encomendada pela Secretaria Estadual da Saúde apontou que existia má gestão na Santa Casa. Dentre as irregularidades, o relatório indicou a compra de materiais superfaturados, pagamento de super salários e fraudes em contratações de serviços.

Para os hospitais que já estão endividados a solução, segundo ele, é começar imediatamente um projeto de reestruturação da estratégia e dos processos, “proporcionando que esta dívida não aumente e quem sabe, ao passar do tempo, estas dívidas antigas possam ser negociadas”, diz Jaime Gil Bernardes.

MP acompanha situação de hospitais em Curitiba
A Promotoria de Justiça de Proteção à Saúde Pública recebeu a informação no fim do ano passado sobre a possibilidade de fechamento de leitos em hospitais filantrópicos do estado, entre eles a Santa Casa de Curitiba. “A Promotoria de Justiça está acompanhando a questão para verificar as providências que serão adotadas pelo gestor público para resolver a situação”, informa em nota o Ministério Público.

Fonte: Gazeta do Povo (PR)

 

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